quarta-feira, 25 de abril de 2018

Come on. Let's swing again! ( uma história de Abril)




Aviso: Esta é uma crónica de costumes e não é ficção. O narrador é o único intérprete desta história, cujo nome não foi alterado.

Carlos  Alberto e  Manuela foram meus colegas de trabalho há muitas décadas. Eram ambos fervorosos sportinguistas e estavam casados, respectivamente, com Aurora e Bernardo, fervorosos benfiquistas.
Naquele tempo o futebol ainda era um traço de união pelo que, apesar de ser portista, fui muitas vezes com os dois casais ver jogos a Alvalade, à Luz ou às Antas em sã convivência.
Sempre separei a minha vida privada do convívio com colegas de trabalho, mas aqueles dois casais convidavam-me quase todos os fins de semana para emparceirar com eles, um outro casal e umas amigas  solteiras como eu.
Durante cerca de dois anos fomos algumas vezes juntos  a discotecas, passar fins de semana à Ericeira e Praia Grande e a almoçaradas/jantaradas em grupo.
Depois iniciei a minha vida de andarilho e os nossos encontros acabaram aí. Uma vez vim de férias a  Portugal e telefonei ao Carlos Alberto para o desafiar a tomar um copo.
Combinámos encontro no Metro e Meio. Disse-me que iriam os quatro e depois rumariam ao Charlie Brown.
Quando cheguei, já lá estavam Carlos Alberto e Manuela. Não estranhei o "descaso", pois era já bastante normal quando convivia com eles.  Não esperava era pelo que vinha a seguir. Calos Alberto e Manuela comunicaram-me que  viviam juntos e Aurora e Bernardo tinham mesmo casado.
Fingi-me muito surpreendido com esta "troca" de casais, mas na verdade não estava. Tinha-me apercebido desde sempre que as cumplicidades entre aqueles dois casais  emparceiravam melhor fora do contexto das certidões de casamento. Se alguma surpresa tive, foi pelo facto de os quatro continuarem a dar-se muito bem e a conviver sem complexos, como quando formavam os  casais Carlos / Aurora e Manuela/Bernardo.
Continuavam a ir ao futebol  e a passar fins de semana juntos.
Os anos passaram, ainda me encontrei com eles algumas vezes quando vinha a Portugal, mas cada vez mais espaçadamente.
Quis o acaso que, pouco depois de me ter sido diagnosticado o cancro, encontrasse Manuela no Curry Cabral. Eu estava em vésperas de ser operado, ela a acompanhar a Mãe a quem fora diagnosticado um cancro no fígado.
Prometi dizer quando seria operado, mas não cumpri. A verdade é que durante meses, após a operação, não queria ver ninguém e, muito menos, quem me recordasse um tempo em que era jovem e feliz.
Um dia, próximo do Natal de 2015, Carlos Alberto telefonou-me a perguntar  quando seria operado. Na verdade já fora operado em Outubro, mas disse-lhe que tinha sido apenas nos finais de Novembro, estava em convalescença e pedia desculpa, mas não queria ser visto por ninguém. Assim que estivesse pronto a vê-los telefonaria para que me visitassem, ou nos encontrássemos.
Os meses foram passando, Carlos Alberto e Manuela de vez em quando telefonavam, mas fui arranjando sempre desculpas para não nos encontrarmos.
Naturalmente, os telefonemas foram escasseando, até desaparecerem por completo.
Este ano, dias antes do Carnaval, de partida para Barcelona, telefonei a Carlos Alberto. Depois de muitas desculpas, lá arranjei coragem para sugerir um encontro, logo que regressasse a Lisboa.
Na véspera da deslocação do Porto ao Estoril, a Primavera anunciou-se em jeito de partida carnavalesca atrasada e eu decidi telefonar. Carlos Alberto disse-me que no dia seguinte vinham ver a segunda parte do jogo ( todos a torcer pelo Estoril, obviamente) e propunha um almoço, ou jantar depois do jogo.
Por razões várias optei pelo almoço.  Quando nos sentámos à mesa, a forma com se distribuíram sugeriu-me que ia voltar a ser surpreendido.
Não me enganei.
Semanas mais tarde, em vésperas de Páscoa, Carlos Alberto desafiou-me para almoçar. Apareceu acompanhado de Aurora.  
Agora, que estão os quatro reformados, resolveram voltar aos casais originais. Uma das razões  invocadas, foi a de Manuela e Bernardo quererem sair de Lisboa e viver na quinta da família de Bernardo perto de Lamego. Já Carlos Alberto e Aurora  não suportavam a ideia de abandonar Lisboa, por isso, decidiram que o melhor era retomarem o projecto inicial.
Come on. Let's swing again?

O meu 25 de Abril

Nunca esquecerei como vivi este dia há  44 anos, mas só ao final  do dia fiquei a saber o que se estava a passar no pais.
 

terça-feira, 24 de abril de 2018

As maleitas da geringonça





A geringonça precisa de ir à oficina para fazer a revisão.
É certo que o motor/( António Costa) continua a funcionar quase na perfeição, apesar de alguns ruídos que por vezes se ouvem, mas há peças que estão fora de prazo ou a precisar de uma afinação.
Se é verdade que a árvore de Cames ( Mário Centeno)  apesar de inclinada à direita, está em bom estado, nota-se um desgaste que provoca alguns distúrbios na distribuição, afectando as peças mais frágeis e desgastadas da geringonça.
Eu sei que na cultura basta meia dúzia de vozes que ninguém conhece saírem para a rua com amigos e família em protesto, para se começarem a ouvir ensurdecedores ruídos, mas o ministro da Cultura não existe;
A saúde é um pilar fundamental da geringonça mas o ministro da pasta, a quem compete manter em funcionamento o SNS é  de uma inutilidade absoluta; 
No Desporto, o secretário de estado sofre de clubite aguda, o que lhe provoca uma enorme cegueira. Agravada  pelo facto de a geringonça estar manietada por um eucalipto vermelho que seca tudo à volta. Nem mortes e graves incidentes à porta de estádios acordam esta Bela Adormecida que só  tem olhos para o Penta.
Já que é ceguinho, pelo menos podia estar atento ao que se passou na final  do campeonato universitário de futebol e tirar daí algumas ilações, mas parece já não haver esperança. O homem é um robô bem mandado;
Uma das peças mais sólidas da geringonça é Vieira da Silva, mas começa a revelar algum desgaste. Se em matéria de trabalho a peça continua a funcionar razoavelmente bem, em matéria de Segurança Social as coisas vão declaradamente mal. Os sucessivos casos de irregularidades  nas IPSS, cujos inquéritos se prolongam indefinidamente, têm contribuído para fragilizar um dos melhores ministros da geringonça. A estranha demora (20 meses) em homologar o relatório sobre a gestão da Santa Casa da Misericórdia, que aponta inúmeras irregularidades durante a gestão de Santana Lopes, levanta sérias suspeitas sobre o funcionamento  de uma das peças fundamentais da geringonça.
Se acrescentarmos a tudo isto a dificuldade que nos últimos meses  a geringonça tem mostrado  em relacionar-se com os aillerons que a sustentam (BE e PCP) , o que resulta em constantes guinadas à direita, concluiremos facilmente que a geringonça tem de ir rapidamente à oficina para uma cuidadosa revisão.
Amanhã comemora-se  o 44º aniversário do 25 de Abril. Seria excelente aproveitar a data para o fazer.

Conversas da treta

Devo dizer que  estou cansado dessa conversa  da treta  " os políticos são todos iguais, não fazem nenhum, são corruptos  e ganham balúrdios".
Se ser político é assim tão fácil e rentável, porque é que há cada vez menos gente a querer ir para a política?

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os obscuros meandros da Justiça ( actualizado)

Nos últimos dias têm sido notícia  múltiplas sentenças de absolvição ou penas suspensas  envolvendo casos de pedofilia,  assédio sexual a menores, violações e violência doméstica.   Consideradas "aberrantes" pela opinião pública, as sentenças encontram sempre respaldo na lei, fundamentando-se em argumentos aparentemente inatacáveis, mas contrários ao senso comum. 
Um dos argumentos  utilizado  para justificar a pena suspensa  a um  professor que abusava dos seus alunos e explicandos ( o arguido era acusado de 156 crimes, dos quais  89 foram provados) ,  foi  que o arguido já  tinha sido julgado socialmente, durante o período em que decorreu o julgamento.
Não tenho o direito de julgar  quem proferiu uma sentença deste teor, mas ninguém me pode negar o direito de  suspeitar que tais argumentos para justificar penas tão leves em crimes tão hediondos, não radicam apenas numa legislação permissiva e benevolente.
No entanto, se eu estiver enganado e, na verdade, o "julgamento social"  deva  ser considerado como pena suficiente para crimes repugnantes , sou obrigado a admitir que o mesmo argumento possa vir a ser invocado para Ricardo Salgado, José Sócrates, Miguel Macedo ou Duarte Lima, por exemplo.  É que apesar de os seus crimes serem aberrantes, a  forma  abjecta e despudorada como os seus casos têm sido expostos pela comunicação social, com a conivência e cumplicidade de agentes da justiça empenhados na condenação social daqueles arguidos, me parece também suficientemente severa para justificar a sua absolvição. Até porque, pelo que se tem visto nas "reportagens" da SIC, não há uma única acusação provada, mas apenas suspeitas de um juiz e um procurador.
Aconselha no entanto a prudência, que me abstenha de proferir tal afirmação, pois  se por mera hipótese académica Sócrates e Ricardo Salgado viessem a ser absolvidos por falta de provas, então a Justiça ficaria pelas ruas da amargura e o descrédito seria total e irreversível.

domingo, 22 de abril de 2018

Rua dos Cafés (1)




Em quase todas as cidades e vilas portuguesas existiu um Café que se tornou ex-libris da resistência ao Estado Novo, local de tertúlia vigiado pelos pressurosos agentes da PIDE, estabelecimentos que serviram de mote para a magnífica trilogia de Álvaro Guerra ( Café Central, Café República e Café 25 de Abril).
Pertenço a uma geração que convivia, tertuliava, conspirava e estudava em cafés. O Velásquez ou o Piolho no Porto, o Monte Carlo ou o Gelo em Lisboa, são apenas alguns dos cafés cujas cadeiras contribuíram para puir as minhas calças e arejar a minha mente.
Quando visito qualquer lugar procuro descobrir cafés ligados à História desses locais. Hoje, em Portugal, são poucos os cafés simbólicos. A maioria deles  desapareceu ou  foi recuperado e virou local de roteiro turístico, como o Majestic e o Guarany no Porto, a Brasileira em Lisboa, o El Greco em Roma ou o Tortoni em Buenos Aires. No entanto, qualquer um deles faz parte da minha história de vida. Foi sentado nas mesas do Majestic que convivi com jovens da minha idade que anos mais tarde se tornariam figuras proeminentes da vida portuense e nacional. Foi no Monte Carlo a ouvir as conversas dos mais velhos, como o Carlos Oliveira, ou o Zé Cardoso Pires, que me fui moldando. Foi nas mesas do Tortoni, da Confiteria Ideal  e do Café de La Paix que aprendi a amar a América do Sul e especialmente a Argentina.
A maioria dos leitores  guardará na memória, pelo menos um café do tempo da sua juventude. 
Foi partindo desse pressuposto que há anos, depois de escrever alguns posts sobre " Os cafés da minha vida" desafiei os leitores a partilharem histórias vividas em cafés que fizeram parte das suas vidas.
Assim nasceu, no  meu blog  "crónicas on the rocks," a rubrica "A Rua dos Cafés" que hoje é reaberta ao público. Com os cafés  de então e com aqueles que outros leitores, entretanto aqui chegados, queiram partilhar connosco. Nos próximos domingos, a Rua dos Cafés é vossa.
Sejam bem vindos

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sábado, 21 de abril de 2018

Humor fim de semana

Dois judeus russos encontram-se numa estação de comboios. Pergunta um:
– Onde vais? 
– Vou a Níjni Novgorod – responde o outro. 
Após um momento calado, diz o primeiro, furioso: 
– Se dizes que vais a Níjni Novgorod, é porque queres que pense que vais a Odessa, e se queres que pense que vais a Odessa, é porque vais a Níjni Novgorod. Então, porque me mentes?!

Lição da semana

Tempos houve em que os homens vestiam um casaco e punham uma gravata para ir a uma festa, a um espectáculo no Casino, a um teatro, ou mesmo ao cinema em noite de sábado.
Hoje, quando vemos um  homem abaixo dos 40 de fato e gravata, sabemos que ele vai trabalhar.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Venha tomar um café comigo



Assinalou-se, no último sábado ( 14 de Abril) o Dia Internacional do Café. 
Os leitores mais antigos do CR lembram-se certamente de  duas rubricas que animaram o CR ( Cafés com Histórias Dentro)  e o agora muito exclusivo "Crónicas on the rocks"  ( A Rua dos Cafés).
Ambas as rubricas  tiveram a  participação de muitos leitores/as  que contaram histórias vividas em cafés.
Vem isto a propósito do encontro  da Associação Europeia dos Cafés Históricos que  se realiza em Coimbra nos próximos dias 20 e 21. O objectivo é criar uma rota europeia de cafés históricos, um remake alargado da Rota dos Cafés Portugueses com História.
a ideia parece-me excelente e espero que em breve surja uma Rota Mundial.
Ao ler a notícia, lembrei-me de recuperar  todos os posts sobre cafés que foram publicados aqui e no "on the Rocks".
Assim,  a série Cafés com Histórias Dentro irá  ocupar, ao fim de semana , o  lugar que durante mais de um ano pertenceu aos Bilhetes Postal.
Os posts serão reedições dos que então foram publicados. A maioria dos leitores actuais nunca os leu e é minha convicção que os leitores mais antigos gostarão de os recordar.  Não está, porém,  excluída a hipótese de aqui trazer alguns textos novos.
Espero que esta série seja do vosso agrado.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Crónica de uma Morte anunciada

O mais intrigante nesta história das fugas de informação de processos mediáticos, deliberadamente provocadas por agentes da Justiça, é perceber quais são os intuitos de quem passou a informação  e a quem efectivamente interessa  a divulgação, porque pretende com isso tirar benefícios.
O mais preocupante é que estes casos desacreditam  a Justiça porque- particularmente no caso de Sócrates-  demonstram a fragilidade da acusação.
Também a tentativa de arquivar à pressa o processo IURD levanta muitas dúvidas, particularmente depois de ser conhecido este episódio que, iniludivelmente, demonstra que alguém anda a manipular e boicotar o processo.
A justiça é um dos mais sólidos pilares da Democracia, mas uma justiça   que  se expõe na praça pública  e viola constantemente a Lei, é uma justiça desacreditada e fragilizada.  Quem fica em perigo, nestas circunstâncias, é a própria Democracia. 

Diz o roto ao nu

Os subsídios pagos aos deputados da Madeira e dos Açores podem ser contestados e considerados obscenos, mas não são ilegais.
O mesmo se diga dos subsídios pagos aos deputados europeus, substancialmente mais elevados do que os dos nossos deputados e que muitas vezes são utilizados para virem a Portugal participar em programas de televisão.
A obscenidade é inequívoca,mas sobejamente conhecida. Miguel Portas, quando era deputado europeu, criticou essas mordomias e foi então muito atacado pelos mesmos qu hoje se indignam com os subsídios pagos aos deputados dos Açores e Madeira que, muito provavelmente, farão mais para os justificar, do que muitos deputados europeus.